O que uma biblioteca e seus frequentadores revelam sobre a alma, sobre a história de uma cidade?

Aqui eu deixo com vocês um olhar pessoal sobre a biblioteca de Iuriatin, uma personagem super importante do livro Doutor Jivago, de Boris Pasternak!

Não tanto por servir de palco para o reencontro de Iúri e Lara mas por ser o ponto de encontro e ao mesmo tempo de fratura, entre dois mundos, duas classes, uma infinidade de semblantes que se refugiavam mais nas suas paredes que na intimidade dos livros.

Logo que se encerram as anotações de Iúri, o nosso Monsieur le Docteur, Pasternak começa a nos descrever uma manhã na biblioteca da cidade de Iuriátin. Iúri está na sala de leitura, cercado pelos livros solicitados à bibliotecária. Era nesse ambiente que ele passava todas as manhãs aproveitando que a época da colheita em Varikno ainda estava longe. Nesse cenário, nós vamos conhecer uma cidade e seus habitantes à luz do comportamento dos leitores/frequentadores da biblioteca. As pessoas se dirigiam àquele prédio não apenas para ler os livros mas para ali se sentar, beber água, e se perder na paisagem possível vista da janela: era uma forma de experimentarem a vida dentro daquelas paredes. O que era viver?

O que seria a vida dali em diante? O que era o trabalho? Quanto valia o dinheiro?

A biblioteca é palco de uma série de reflexões daqueles que vão para lá pelos mais diversos motivos, mas pela mesma necessidade de encontrar sentido na vida, e de saber o que seria a vida por vir.

Ao observar esses leitores, Iúri sentia que eles eram como as casas, os costumes, os objetos da cidade, de modo que lhe parecia que era a cidade como um todo, por meio de cada um de seus elementos, estampados naquelas pessoas, a cidade como um todo ia à biblioteca.

“(…) Avistava-se a Iuriatin real, a verdadeira e não a imaginada, pelas janelas da sala. Na janela do meio, a maior de todas, havia um tanque com água fervida. Os leitores para descansar, cercavam o tanque, bebiam água, jogando os restos na bacia, e amontoavam-se do lado da janela, admirando a vista da cidade. (…)

Havia dois tipos de leitores: os guardiões da intelectualidade local [mais da metade eram judeus tradicionalistas], que eram a maioria, e as pessoas simples do povo” (p. 332).

O primeiro tipo era composto em sua maioria por mulheres de aparência doentia, que andavam desleixadas e aparentavam ter passado fome e sobrevivido a doenças que marcam o corpo, o andar, as curvas: icterícia, hidropisia. Eram assíduas e conheciam bem os funcionários, ali era como suas casas. Já as pessoas do povo eram limpas, belas, iluminadas, saudáveis eram tímidas e ao mesmo tempo barulhentas, queriam saber como soavam seus sapatos naquele novo ambiente.

Uma biblioteca construída graças a doações e uma perspectiva incrível de um mundo ainda a ser construído, que ainda precisa se destacar do caos e das ruínas da guerra civil, mas sobretudo, um mundo que se quer novo!

 

Quer saber mais sobre esse lugar mágico? Então dê play no vídeo!

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